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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Para Roma, com amor


Tendo como cenário a bela e iluminada capital italiana em tons pastéis, Para Roma, com amor, de Woody Allen, nos apresenta quatro diferentes estórias: A chegada dos pais da noiva à cidade para conhecer o futuro genro e sua família italiana; o desencontro de recém-casados após a esposa perder-se nas ruas em busca de um cabelereiro; a visita da aspirante à atriz que passa uns dias na casa da amiga e de seu namorado; e a transformação na vida de um pacato homem e sua família após ele ser reconhecido (ou seria conhecido?) como celebridade.

Intercaladas em uma montagem eficiente, o que dá a sensação de se passarem simultaneamente, as estórias jamais se cruzam. E os tempos tampouco se assemelham. O que há de comum entre os personagens, aparentemente tão corriqueiros, são as situações absurdas, ou no mínimo impensadas, que enfrentam e provocam. 

É assim quando o “pai da noiva” escuta o sogro da filha cantando ópera embaixo do chuveiro e decide lançá-lo no mercado da música, extasiado com a potência de sua voz. Ou quando a ingênua e recém-casada moça do interior se perde nas ruas de Roma, enquanto seu noivo, no quarto de hotel, recebe a visita inesperada de uma garota de programa que o confunde com um de seus clientes. Em outro canto da cidade, um jovem arquiteto se apaixona pela sempre descabelada e falante amiga da namorada, tendo nos ombros o fantasma palpiteiro do que seria no futuro. Por fim, um cidadão comum, trabalhador e pai de família, passa a ser tratado como celebridade e ganha as páginas da mídia dando depoimentos sobre a forma de se barbear e preparar a própria torrada.

“Para Roma, com amor” possui um ritmo agradável, com trilha sonora romântica e divertida. Os diálogos precisos e, quase sempre, hilários, compõem muitos dos personagens e nos revelam nuances de suas personalidades até então impensadas do ponto inicial da narrativa. É assim que conhecemos os anseios do aposentado, do tenor, do casal inocente, do homem maduro saudoso da juventude e do pai de família diante de uma fama insustentável.  

Brincando com a imprevisibilidade do amor e das loucuras do dia a dia, Woody Allen remete às mais diferentes situações e é na riqueza destas e dos personagens que também encontramos um pouco de nós. Assim, quase sem perceber. E de forma leve.  


Por Rafaella Arruda

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O artista



Assistir a O Artista é lidar com as belezas e amarguras que permeiam o mundo da 7ª arte. Dentro e fora da tela. Na vida encenada e na vida real. Um filme mudo e em preto branco, que trata do próprio cinema mudo em um espetáculo de metalinguagem, O Artista conta a estória de George Valentin, astro das telas de Hollywood durante o final da década de 20. Um galã, alegre e simpático, à la Gene Kelly, que conquista as plateias com suas caras e bocas ao representar heróis e conquistadores. De uma maneira bastante trivial, Valentin conhece a espontânea Peppy Miller, e o acaso os faz serem fotografados juntos, como um casal. Admirada com o astro e vislumbrada com as possibilidades de também tornar-se atriz, Peppy Miller aventura-se na carreira com o apoio de Valentin. A partir da chegada do cinema falado, os atores tomarão caminhos opostos. Ele irá persistir na arte que o consagrou, negando-se a aderir à nova linguagem. Ela mostrará todo seu talento nos filmes falados. O destino de suas carreiras, ao enfrentar queda e ascensão, será o destino de suas próprias vidas.
 
O Artista desperta diferentes emoções, desde o riso até o choro. As cenas iniciais entre Valentin e Miller são leves, divertidas, e até certo ponto, ingênuas. A sequência em que se reveem pelos pés através de um biombo, em um estúdio de filmagem, ou na qual Miller é surpreendida por Valentin em seu camarim, enquanto abraça o paletó do ator, revela o despertar de um sentimento que, embora pareça tímido, se mostrará forte e capaz de enfrentar as mais difíceis situações. 
Por outro lado, a decadência financeira e profissional de Valentin, representada sem delongas a partir de uma ascensão consolidada, é o retrato penoso da destruição de um sonho e facilmente nos faz sentir pena e nostalgia pelos dias de glória. As tentativas frustradas do ator em manter o sucesso só reforçam esse sentimento, como ao lançar-se como roteirista, produtor, diretor, editor e ator de um possível “novo filme mudo de sucesso” e receber um retorno ínfimo do público. Em contraste, a carreira cada vez mais gloriosa de Peppy Miller. De aspirante à atriz, ela torna-se o que Valentin foi. Em diferentes momentos, ao reencontrarem-se, essa diferença de status é representada pelo posicionamento dos atores e ângulos de filmagem. Na conversa nos degraus do estúdio, a atriz está acima, enquanto ele, abaixo. Na mesa do restaurante, enquanto Miller responde à imprensa, iluminada, Valentin recua-se ao canto mais escuro, frustrado. 
A resistência de George Valentin em aceitar a chegada do cinema falado é repleta de simbologias. Cheio de vida, mas também de medo e orgulho, o ator nega o novo. Em seus sonhos, representados com belos esquemas de edição, o som é o maior vilão. A voz lhe falta, enquanto a dos demais lhe oprime. Mas talvez seja na presença de um adorável cãozinho, principal companheiro de Valentin desde as cenas iniciais do filme, que esteja melhor representado o conflito entre o mudo e o falado, entre o sentimento e sua verbalização. São eles os que mais se entendem, sem que, para isso, precisem trocar uma só palavra. O mesmo acontecendo em diferente escala, entre Valentin e seu chofer Clifton, em um relacionamento repleto de verdade e lealdade, e de poucas palavras. 
Transportados para a era do cinema mudo a partir de uma bela trilha sonora, condizente com as sensações trazidas pelo filme, e personagens oportunamente caricatos e sensíveis, O Artista nos enriquece ainda com referências claras a alguns clássicos da 7ª arte, como Cidadão Kane e Cantando na Chuva. Ao encerrar-se com a chegada dos musicais, o filme parece completar um ciclo e retomar a grandiosidade dos momentos de Valentin. Um artista não necessariamente rendido à fala, mas ao amor da mulher que soube abrir seus olhos para a capacidade de viver sem esconder o próprio talento. 
Por Rafaella Arruda

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Separação



O drama iraniano A Separação (2011) é um belo, tenso e emocionante retrato da vida comum. Em meio a um dilema afetivo, mais marcado pelo conflito de interesses do que pela falta de sentimentos, o casal Simin e Nader resolve se separar. Ela pretende mudar-se do Irã e começar uma nova vida ao lado do marido e da filha Termeh, de 11 anos. Ele, dedicado ao pai que sofre de Alzheimer, recusa-se a abandoná-lo para acompanhar a esposa, assim como se nega a aceitar a partida da filha. O impasse, que vê na separação a única saída, torna-se o ponto de partida para uma nova realidade. Longe da esposa e tendo que se dedicar ao pai, de 80 anos, e aos cuidados de sua filha, Nader contrata Razieh, uma mulher a quem caberá os serviços domésticos e os cuidados do idoso durante sua ausência. Uma árdua tarefa que levará a batalhadora e dedicada mulher a enfrentar seus limites... Após um incidente no trabalho, Razieh, Nader e suas respectivas famílias enfrentarão novos impasses, colocando em jogo questões envolvendo dignidade, família e religião.

O uso frequente de câmera subjetiva e planos fechados, que quase não nos permite perceber os ambientes em sua totalidade, enquanto enfatiza a expressão dos atores, cria uma sensação de proximidade do espectador com os personagens e suas aflições. A captura constante de particularidades dos cenários domésticos, como porta, janelas e escadas, também nos aproxima da vida daqueles que são representados, criando uma intimidade entre nós e o ambiente, como se também fizemos parte daquela rotina. Nas situações de angústia e tensão, por exemplo, somos também acuados, como durante os tantos diálogos intensos, praticamente sem pausas. Mas A Separação é, antes de tudo, um filme marcado pela sensibilidade, pela naturalidade das emoções tão bem transmitidas pelos atores.

Os personagens, cada um com seu destacado valor (incrível perceber como cada uma das estórias representadas assume uma importância para a narrativa), são fortes, e ao mesmo tempo frágeis. Como Nader, homem honesto, dedicado e atencioso que em momento decisivo se encoleriza, acusa, agride... E Razieh, zelosa, decente, compreensiva e temente a seu Deus, mas que se precipita ao acusar sem certezas. Indivíduos que se sacrificam e se perdem em suas fragilidades. Do outro lado, as doces crianças Termeh e Somayeh, que não menos se sacrificam, e que, em sua pureza e inocência, enfrentam as dificuldades da vida sem escudos. Perceber o choro da menina Termeh, ao surpreender a aparente morte do avô, ou da pequena Somayeh, no desespero de presenciar o sofrimento da mãe, são situações que emocionam tanto quanto o choro de Nader na luta para cuidar do pai ou de Razieh, que implora perdão para conseguir a liberdade do marido. Situações magistralmente conduzidas e que exalam verdade.

Mas o importante é que a produção iraniana A Separação não é um retrato pessimista da vida. É sim, apenas, um retrato da realidade, com todos seus dilemas. Talvez tão perfeitamente transpostos mesmo para nossa tão distinta realidade Ocidental. Um mundo de homens comuns permeado pelo conflito de valores como família, religião, educação e respeito próprio. Onde se relacionam pais e filhos, senhores e empregados, crianças e idosos.

No filme, a sensação é de que, apesar das dificuldades, no fim, sobressaem os bons valores. A moral, e não a decadência. E como forma de trazer esse questionamento a nós mesmos, temos a estratégica cena final em que se retoma a situação da “separação”. Seríamos capazes, estando no lugar do personagem, de decidir pelo melhor caminho? Com quem ou pelo quê ficaríamos? É com essa pergunta que abandonamos a tela... Procurando respostas. Pensando sobre as dificuldades do mundo, mas principalmente, sobre nossa postura diante delas.

Por Rafaella Arruda

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Cabo do Medo



Na atual cidade de New Essex, Estados Unidos, um homem recém-saído da prisão retorna à liberdade com o desejo único de vingança. Condenado a 14 anos após estuprar uma jovem, Max Cady (Robert De Niro) parte em busca de Sam Bowden (Nick Nolte), advogado que havia assumido sua defesa no caso e logo após abandonado ao tomar conhecimento do grave estado da vítima. Entregue à defensoria pública, Max é considerado culpado. Na cadeia, descobre que informações acerca da vida promíscua da vítima, capazes de reduzir sua pena, haviam sido omitidas pelo ex-advogado. Agora, nas ruas, Max Cady quer se vingar, e para isso não medirá conseqüências. Sam, a esposa Leigh (Jessica Lange) e a filha adolescente Danny (Juliette Lewis) serão os alvos deste violento psicopata, em uma trama surpreendente sobre traição, vingança e assassinatos.

A estrutura narrativa linear de Cabo do Medo revela de forma gradual o perfil dos personagens. Inicialmente, em fragmentos breves, apresenta os protagonistas que constituem um único núcleo narrativo: Max Cady e a família de Sam Bowden. A partir da primeira virada violenta e dramática da estória, com o estupro da amante de Sam, Lori Davis (Illeana Douglas), as ameaças de Max tornam-se fatos, o que garante a expectativa e suspense acerca dos próximos acontecimentos. O vilão revela sua perversidade e deixa claro do que realmente é capaz.

Irônico e destemido, Max não teme as leis e a possibilidade de retornar à prisão; violento, usa de toda a força física para agredir e matar; cruel, lança mão de tortura psicológica ao fazer ameaças constantes e sugerir a suas vítimas as mais constrangedoras situações. O corpo forte e coberto por tatuagens constitui para Max uma arma letal e resulta da preparação durante os anos que esteve na cadeia. Fanático religioso, recita de cor trechos da Bíblia em momentos cruciais da trama, como durante a agressão encomendada por Sam ou no embate final na casa flutuante. A forte ligação com a religião e a visão estranha que possui de Deus, inclusive, contribuem para tornar Max um personagem interessante e curioso não apenas do ponto de vista físico, mas também moral e psicológico. Em diversas situações, Max surpreende em atitudes não esperadas pelos personagens nem pelo espectador, como ao se esconder sob o carro na fuga para à casa flutuante ou ao se disfarçar com as roupas da empregada da família, após assassiná-la. Também ao aproximar-se de Lori e Danny, sem revelar quem realmente é, Max gera grande expectativa sobre como e quando se manifestará.

A sequência entre Max e Danny na escola é um destes exemplos. Ao se encontrarem, após uma estratégia muito bem planejada pelo vilão, Danny não tem consciência da ameaça a que está submetida, o que garante a tensão da conversa do início ao fim: sabemos do mal que Max quer fazer à jovem, mas não sabemos ainda de que maneira; sabemos do que ele é capaz, enquanto a jovem acredita apenas estar conversando com um professor. Com diálogos inteligentes e repletos de subjetividades, a inocência de Danny, brilhantemente representada por Juliette Lewis, se contrapõe à malícia de Max em uma sequência bastante envolvente. Ela figura o estereótipo de uma adolescente em fase de transição e questionamentos, e seus trejeitos físicos, andar e olhares nos fazem percebê-la como uma jovem imatura e inexperiente, presa fácil de uma mente perversa como a de Max Cady

Sam Bowden, apresentado como um frio advogado e pai de família, também revela ao longo da trama mais de seu caráter. Descobrimos que ele trai a esposa e tem problemas de relacionamento com a filha adolescente. Todos os três com temperamentos fortes e propensos ao conflito de interesses. Enquanto alega sensatez por ter abandonado a defesa de Max, 14 anos antes, lança mão de métodos ilegais para capturá-lo ao pagar capangas para agredi-lo. Assim, à medida que as ameaças de Max aumentam e Sam sente-se acuado e perturbado, percebemos no advogado uma grande determinação para proteger sua família, podendo, semelhante ao algoz, levar sua atitude até às últimas consequências. Da mesma maneira, ansiamos pelas investidas de Sam e pela capacidade que terá para vencer o inimigo.

Nos aspectos técnicos de direção, o uso de violência extrema, mostrada com grande realismo (cena do estupro, agressão a Max Cady e luta na casa flutuante), a abordagem de conflitos familiares, a tensão psicológica íntima vivida pelos personagens e a submersão destes em uma atmosfera de traição e assassinatos são elementos que confirmam o estilo de Martin Scorsese, tome-se como referência obras de destaque do cineasta como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros. Por tratar-se de um suspense, Cabo do Medo prioriza a surpresa, a tensão e a expectativa, como já citado, e tem na trilha sonora e na fotografia elementos essenciais de reforço do gênero.

A trilha, de responsabilidade do músico Bernard Herrmann, que assinou inúmeras produções do mestre do suspense, Alfred Hitchcock, tem notas bem marcadas nos momentos mais tensos, ao antecipar surpresas, conduzir fugas e perseguições, e ao embalar as aparições de Max Cady. Em relação à fotografia, o uso recorrente de primeiro e primeiríssimo plano (ou close-up), câmeras estáticas e movimentos de zoom in captam as expressões dos personagens em momentos de maior tensão e, portanto, contribuem para o suspense ao enquadrá-los de forma mais próxima, possibilitando ao espectador compartilhar mais intensamente de seus medos e aflições. Exemplos são os enquadramentos longos em close-up de Max Cady ao ser levado à delegacia, acusado de envenenar o cão da família Bowden, e o movimento de zoom-in sobre Sam ao ser informado da acusação por agressão.

A iluminação do filme é predominantemente escura, com uso de sombras, reflexos na água e jogo de luzes que remetem a sonhos e alucinações. Essa forma valoriza o clima sombrio da trama ao encobrir elementos e personagens e, portanto, gerar expectativa sobre o que será revelado, como na sequência em que a família Bowden esconde-se na própria casa, às escuras, para aguardar a chegada de Max. Além disso, também para reafirmar o estilo de Scorsese, Cabo do Medo faz uso recorrente de cores fortes, com ênfase no vermelho, seja no sangue intenso das cenas de violência ou no próprio figurino de Max Cady, inclusive caracterizando o seu próprio carro. Neste sentido, o vermelho simboliza o pecado e a maldade de Max Cady, aquele pelo qual se tem mais temor.

Cabo do Medo representa, assim, mais um suspense hollywoodiano de qualidade. Com uma trama envolvente, personagens fortes e um clima sombrio e ameaçador, é mais um exemplo da condução fascinante de Scorsese em parceria com o brilhante Robert De Niro.


Por Rafaella Arruda

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Palhaço


A comédia dramática O Palhaço, de 2011, encanta pela simplicidade. O filme nos coloca em contato com a arte circense, mas mais do que isso, nos coloca em contato com a emoção do artista, dentro e fora dos palcos. Selton Mello, responsável pela direção e roteiro do filme, é o palhaço Pangaré, que junto com o pai, o Palhaço Puro Sangue, interpretado por Paulo José, mantém o itinerante Circo Esperança. Além destes, cerca de outros 10 artistas fazem parte da trupe onde todos fazem de tudo, desde a montagem da tenda até a iluminação dos espetáculos. Ao acompanhar as divertidas apresentações e as viagens do grupo pelas estradas de Minas Gerais, identificamos as dificuldades financeiras e os anseios por melhoras modestas, como o pedido por um sutiã novo. Ainda assim, sentimos predominar a alegria e união entre os artistas e a dedicação em fazerem o que gostam.

Pangaré, por outro lado, referência e espécie de conselheiro do grupo, mantém-se firme no palco, mas fora dele não revela alegria no olhar. Sentimento sugerido pela própria maquiagem que, propositadamente, insiste em lhe conferir uma lágrima. O humilde e bondoso palhaço angustia-se pela realização de pequenos desejos, como a emissão da carteira de identidade e a compra de um ventilador. A certidão de nascimento, único registro disponível, encontra-se velha e insuficiente nos momentos em que mais precisa. O ventilador, caro e inacessível. Ambos símbolos de algo maior para um artista que, melancólico, questiona a própria identidade, sem entender a vocação de fazer rir, e que sente o peso da responsabilidade perante o grupo, como se realmente lhe faltasse paz e tranquilidade, como se de fato lhe faltasse o ar.

Exemplos disso são as alucinações de Pangaré diante de um ventilador, imaginário ou não, e as repetidas cenas em que, sozinho na cama, enquadrado em plongé e plano fechado, parece não conseguir se acomodar, sem encontrar uma posição confortável. Mesmo nestas situações de angústia, o brilhantismo de Selton Mello confere irreverência em cada cena. Um trabalho perfeito ao mesclar adequadamente a tristeza a trejeitos incomuns, sotaques, falas arrastadas, expressões faciais quase infantis e exagero sentimental.

Neste cenário, O Palhaço mistura situações de humor e outras altamente emotivas, conduzidas por uma trilha sonora com sons que sugerem o lúdico, o campo e a natureza, além de uma fotografia predominantemente focada em cores leves e com cenas gravadas pela manhã, o que contribui para a atmosfera suave da obra. As cenas à noite acabam por revelar situações mais angustiantes e tumultuadas, como aquelas ligadas à briga e traição, mas também são o palco para a alegria dos espetáculos.

Entre figurantes, protagonistas e personagens com passagens marcantes, mas breves, as idas e vindas do Circo Esperança nos conduzem em uma agradável caminhada. No caminho da trupe, destaques como o hilário delegado vivido por Moacyr Franco, que divaga intermitentemente para demonstrar a insatisfação de estar na delegacia e não em casa cuidando do gato de estimação, além do experiente interiorano vivido por Jackson Antunes que, longe do humor, transmite belas mensagens ao grupo.

Uma destas mensagens, inclusive, será a chave para o despertar de Pangaré. Desassossegado, com uma inquietação crescente no ambiente do circo, o palhaço parte em busca do que nem mesmo ele sabe o que é, mas acredita precisar encontrar. Em um dos pontos altos do filme, quando, junto a Pangaré, nos distanciamos da trupe e dos espetáculos, entendemos a certeza que faltava ao artista: o valor de fazer o outro sorrir. Em uma belíssima cena em que, ao ouvir um piadista, compreende essa verdade e ensaia finalmente um sorriso verdadeiro, Pangaré retoma a esperança. E como no próprio circo, também reanimado pela presença de uma criança, dá lugar a uma nova vida.

Por Rafaella Arruda

domingo, 9 de outubro de 2011

Os Intocáveis


É sempre maravilhoso descobrir uma obra prima. Mesmo com 24 anos de atraso... Os Intocáveis, produção de 1987 de Brian de Palma, salta aos olhos e aos ouvidos já nos créditos iniciais. A trilha forte de Ennio Morricone, aliada ao movimento das palavras encobertas por sombras, revela a atmosfera de ação e suspense a que estaremos submetidos nas próximas duas horas de projeção. Noção também da criatividade do uso da câmera e do destaque daqueles considerados “intocáveis” a partir do afastamento do título.

O contexto que temos é a Chicago durante os anos 1930, período da lei seca que consistia em proibir a fabricação, venda e consumo de bebidas alcoólicas em todo os Estados Unidos. Como resultado, um alto índice de ilegalidade e violência lideradas por mafiosos. Um de seus principais representantes, o ítaloamericano Al Capone, vivido magistralmente por Robert de Niro, nos é apresentado em um amplo plongée de forma a dar conta de sua influência e poder diante de seus subordinados. Como “os intocáveis”, quatro figuras ocasionalmente unidas pela busca da justiça. Em Elliot, personagem de Kevin Costner, temos o marido e pai amoroso, designado como agente especial do Tesouro para conter Al Capone e combater a criminalidade na cidade de Chicago. À determinação e sentimentalismo de Elliot complementam-se a experiência, força e bom humor de Malone, ex-policial vivido por Sean Connery; a prática e agilidade de Stone, personagem de Andy Garcia; e a boa vontade e talento para os números de Oscar, intocável interpretado por Charles Martin Smith. Cada um deles com papel essencial na narrativa.

Percebemos em Os Intocáveis uma bela condução a distinguir imponência e simplicidade, crime e justiça, crueldade e honestidade. A suntuosidade em referência a Al Capone revela-se em tudo, sempre destacada pelos planos, ângulos, movimentos de câmera e cores fortes. São panorâmicas, plongées e contraplongées, além de planos gerais a dar conta da dimensão do ambiente. Na fotografia, o vermelho e preto a destacar força e poder. Em contraste, o lado ameno e intimista dos intocáveis em seus tons bege e amarelado, frequentemente focados em planos mais fechados. Em uma transição que reflete bem a diferença entre os dois mundos, temos a confraternização entre os intocáveis à mesa e a foto que registra a união e companheirismo do grupo. Assemelham-se no propósito, humor e postura uns diante dos outros. Na sequência, em outro cenário, temos Capone, também à mesa. Mas ele não se iguala. De pé, é maior que todos os outros sentados, à escuta. A rigidez de sua atitude, em um desfecho trágico e sangrento, é a quebra da serenidade expressa pelos intocáveis. Entendemos do que Capone é realmente capaz. E torna-se impossível não temer e ansiar pelo que restará do embate entre os personagens.

Repleto de cenas que permanecem na memória, Os Intocáveis possui uma trama muito bem amarrada. As peças são encaixadas sem que nada se perca, de forma a que tudo na narrativa faça sentido. Como na descoberta e perseguição ao contador de Al Capone a envolver todos os personagens em seus momentos mais tensos e decisivos. A cadeia dos Intocáveis, mais uma vez a simbolizar a sintonia do grupo, desenrola-se surpreendentemente... Oscar, Malone, Stone e Elliot. Cada um tendo que se sacrificar e extrair o melhor de si para alcançar o objetivo do grupo. Nem que para isso tenham que entregar a própria vida.

O esforço e agonia de Malone durante sua perseguição, por exemplo, ironicamente intercalada à fisionomia satisfeita de Capone em um espetáculo de ópera, são impulsos que conduzem Elliot e Stone a uma das sequências mais surpreendentes de todo o filme. Na escadaria do metrô, referência direta ao clássico O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein, elementos como a mistura de trilhas e o slow motion, além de diálogos rápidos e um jogo intenso de olhares, dão um tom de ação e expectativa do início ao fim. Da mesma maneira, o embate de Elliot com o principal capataz de Al Capone só justifica-se por um detalhe, além de ter um desfecho diretamente ligado não apenas à sua personalidade digna, mas altamente determinada.

Os Intocáveis são, assim, um filme de detalhes. Rico em narrativa, técnica e interpretação. E mais especialmente, retrato de um submundo poderoso e cruel, mas não imbatível diante do anseio pela justiça.

Por Rafaella Arruda

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lanterna Verde


Nunca fui muito fã de filmes de fantasia, ficção científica ou sobre super heróis. Já assisti a alguns, e até muito bons, mas nunca foram meus preferidos. E mesmo reconhecendo não possuir uma boa base comparativa para perceber esse tipo de produção, ou talvez por isso mesmo, admito que Lanterna Verde foi uma agradável surpresa.

O filme trata de um grupo de guardiões intergalácticos, ou lanternas verdes, que se une pelo poder de um anel para proteger o Universo. É a ele e ao planeta Oa, refúgio dos lanternas, que somos apresentados logo no início. Muitas cores, belíssimos efeitos especiais, de maquiagem (os traços peculiares no rosto de cada um dos guardiões é magnífico) e cortes rápidos que imprimem ritmo veloz ao filme. Entendemos que os guardiões, longe de serem sujeitos simpáticos e sentimentais, assumem uma importante tarefa de manutenção do mundo e enfrentam momentos críticos na luta contra vilões que, pelo poder amarelo do medo, querem dominar o Universo. Na Terra, ainda sem um representante dos lanternas verdes, Hal Jordan, interpretado por Ryan Reynolds, é designado para assumir a missão. Um rapaz simpático, tanto quanto irresponsável, apaixonado por aviões e marcado pela morte trágica do pai durante um teste de pilotagem.

A realidade sobre-humana dos lanternas e a realidade humana de Hal se cruzam a partir da queda na Terra de um dos heróis verdes ferido pelo ataque do grande inimigo Parallax. Levado por acaso ao local do acidente, Hal recebe do agonizante Abin Sur seu anel e a tarefa de assumir a proteção da Terra junto aos outros intergalácticos. Através do anel, Hal adquire força e superpoderes de criação de qualquer objeto a partir do pensamento. Assim, junto aos humanos e aos demais guardiões, Hal Jordan descobrirá a importância e dificuldades de sua missão e assumirá a identidade de um super herói.

Do lado humano, em uma maneira inteligente de integrar o vilão sobrenatural ao mundo tangível de Hal, descobrimos a personificação do mal no cientista Doutor Hector. Contaminado pelo sangue do vilão Parallax ao examinar o corpo já sem vida do extraterreno Abin Sur, Doutor Hector adquire nova personalidade e uma fisionomia que se torna gradualmente bizarra: o cérebro avantajado, as veias sobressalentes e olhos amarelados. Em uma brilhante atuação de Peter Sargaad como o pobre cientista que se torna vilão por acaso, percebemos uma frustração e revolta oriundas de seu lado são, aliadas ao ódio e desejo de dominação inerentes a Parallax. O foco nos olhos amarelos de Hector antes de suas reações violentas tem significativo impacto visual, como na sequência do laboratório em que ele se desvencilha daqueles que tentam controlá-lo. Em suas aparições, o não propriamente vilão Doutor Hector rouba as cenas com sua figura esquisita e atitude vigorosa diante do comportado e previsível Hal Jordan. Talvez seja por isso que a aparente solução final de seu personagem tenha causado em mim estranheza e certa frustração.

Apesar da trama amarrada de forma simples entre bons e maus, derrota e superação, algumas situações que poderiam render bons frutos para a estória perdem-se ao longo da narrativa. Além da relação de Hal Jordan com seu pai e sobrinho, destacada no início do filme e esquecida posteriormente, é frágil a própria interação do espectador com o Universo dos lanternas verdes.

Torna-se clara (seria proposital?) a falta de preocupação do diretor Martin Campbell em criar uma afinidade entre nós e os habitantes do planeta OA. A apresentação quase sempre superficial do ambiente e a falta de sintonia entre os lanternas, alguns extremamente frios, caricatos e conservadores, como Sinestro, são um convite automático a restringirmos nossa torcida a Hal, e ainda assim, apenas no momento em que a Terra encontra-se em perigo, jamais antes disso. Assim, a dimensão universal da causa dos lanternas verdes perde força ao longo da estória. Não envolve... Por outro lado, os questionamentos acerca do poder da vontade diante do medo transcendem a esfera dos lanternas e alcançam os dilemas humanos. Ao se dar conta disso é que Hal Jordan enfrenta as próprias limitações e reconhece a força de sua coragem. De fato, algo imprescindível para a sobrevivência de qualquer super herói.

Por Rafaella Arruda

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Homem do Futuro


Quem nunca teve vontade de fazer uma viagem ao passado e modificar algo que já aconteceu? Quem nunca sentiu saudades de um tempo em que era mais jovem, desejou reviver uma sensação boa, e percebeu que se fosse agora, poderia ter feito tudo diferente? O Homem do Futuro trata de maneira agradável e bem humorada esta relação do indivíduo com seu passado, presente e futuro. As emoções características de cada tempo e o peso de nossas decisões na definição do que somos hoje.

O filme conta a história do cientista Zero, personagem de Wagner Moura. Um homem frustrado e de poucos amigos que sofreu na juventude a maior decepção de sua vida: ter sido humilhado pela mulher amada Helena, vivida por Alinne Moraes, diante de uma multidão de colegas durante o baile de faculdade. Apesar do talento na profissão, Zero é um adulto triste que transparece na falta de vaidade e de simpatia com o mundo a revolta carregada por mais de 20 anos. Em todos os momentos de sua vida, apenas o pensamento em Helena.

Ao testar seu novo experimento, uma máquina capaz de gerar uma fonte alternativa de energia para o planeta, Zero é inesperadamente transportado para outro tempo. Em uma interessante sequência em que percebe aos poucos a diferença entre o mundo em que vive e aquele no qual se encontra, Zero compreende ter voltado ao passado. Ao invés de uma nova energia, havia criado um instrumento capaz de levá-lo onde se encontrasse sua mente. Agora, em 22 de novembro de 1991, data da humilhação que transformara para sempre sua vida, inclusive seu próprio nome, Zero terá a oportunidade de reviver o “passado”, transformá-lo e criar definitivamente um novo futuro. Aos poucos, porém, percebe que alterar um tempo já vivido não é algo tão simples. Do contrário, modificá-lo pode tornar as coisas ainda mais difíceis e confusas.

Com narrativa desenrolada de forma simples e objetiva através de fragmentos de tempo, a comédia romântica O Homem do Futuro possibilita uma fácil identificação com o espectador, seja pela temática próxima aos nossos anseios, pela simpatia que nos imprime os personagens ou mesmo pela divertida viagem ao passado. Aos jovens da geração anos 80 e 90, representa um retorno à adolescência entre roupas, música, gírias e estilo, ainda que essencialmente confinado às ocorrências de um baile de faculdade. A canção “Tempo Perdido”, sobre a valorização do presente em contraponto ao tempo passado, é inteligentemente incluída na trama. Cantada pelo casal Helena e João (antes de tornar-se Zero) em um momento chave, é repetida em diferentes contextos no desenrolar do filme, e por isso assume significados e sensações distintas. Ora como trilha de uma feliz recordação, ora como prenúncio de uma tragédia anunciada.

Em toda a miscelânea do ontem, hoje e amanhã, a brilhante presença de Wagner Moura imprime uma identificação perfeita com cada distinto momento de seu personagem. Como o tímido e romântico João, que reflete na gagueira toda a insegurança da juventude, temos a alegria e inocência diante da descoberta do amor. Duas décadas após, com o pseudônimo Zero, a expressão frustrada beirando a insanidade. E também em outro retrato do que poderia ter sido, o estereótipo do homem sem escrúpulos e bem sucedido. Em todos os caminhos, a presença de Helena a definir seu destino. É por ela que Zero corre contra o tempo, conhece mais de si mesmo e luta para desfazer um infeliz engano que ganha diferentes proporções à medida que avançamos na narrativa.

Com diálogos inteligentes, ironicamente relacionados à política, ao avanço tecnológico e a aparecimento de celebridades, o filme traz ainda interessantes efeitos especiais ligados ao funcionamento da máquina do tempo e sua capacidade de desintegrar o homem no espaço, mesmo que falhe em deixar claro o determinante deste “aparecer e desaparecer” ao longo da estória.

Finalmente, assistir a O Homem do Futuro é ter a sensação de que somos hoje exatamente o que deveríamos ser. E que sem amarras, sem medo, sem nostalgia, temos plena condição de modificar o que vem pela frente... Afinal de contas, não necessitamos de uma máquina do tempo para perceber que se as coisas são hoje tão complicadas, por vezes é por nossa falta de esforço de apenas querer torná-las mais simples.

Por Rafaella Arruda

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Árvore da Vida

  
Árvore da Vida, drama com direção e roteiro de Terrence Malick, de 2011, é um filme sobre família e a relação do homem com Deus. A história é desencadeada a partir da morte de um dos três filhos da família O’Brien, durante a década de 1950, nos Estados Unidos. A tristeza que se abate sobre os pais, senhor e senhora O’ Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain), e o filho mais velho, Jack (Hunter McCracken), levará a toda uma temática altamente subjetiva de questionamentos sobre a verdade divina.

Projetados às lembranças de um Jack já adulto (Sean Penn), mas não menos tocado pela tristeza e angústia desde a morte do irmão, ainda durante a adolescência, somos conduzidos à vida da família desde sua formação. O retrato é de uma família tradicional, com força na figura paterna e marcante sensibilidade maternal... Percebemos Jack desde o nascimento com a ótica de uma criança. A câmera baixa, que nos coloca a sua altura, e os planos longos em suas descobertas, como os primeiros passos e o ciúme diante do irmão recém-nascido, sensibiliza pela proximidade com seus atos e reações.

Em sua fase jovem, na convivência com os pais, irmãos e amigos, a narrativa descortina os conflitos familiares e o lado perturbador das novas experiências. Tenta-se explicar, assim, a fase presente de Jack como retrato de uma inocência perdida.

Mas o que mais encanta na direção de Malick são as reminiscências de vida apresentadas em um bloco descontínuo, permeadas por questionamentos de insatisfação diante de Deus e por visões que se assemelham a sonhos. Em um momento singular, como resposta à tragédia da perda de um filho, presenciamos um demorado espetáculo de imagens e melodia que remete às fases de criação do Universo. Cenas estrategicamente contrapostas às indagações da mãe diante do inevitável. Impossível não reagir à percebida pequenez de nossas aflições. Uma viagem consciencial que perdurará por todo o filme.

Com um desfecho tão ou mais subjetivo que a totalidade da obra, que possibilita interpretações à altura de nossos sonhos, Árvore da Vida é o espelho de uma mente comum diante da perda, saudade, frustração, arrependimento. É também essa mesma mente que, fruto ou não da criação divina, é capaz de redimir-se e libertar não só a si, mas também aqueles que mais amamos.

Por Rafaella Arruda